Por que Corro?
"Corro porque sou kantiana. Não sigo os instintos da minha natureza, mas, sim, torno-me aquilo que não sou por uma razão maior. Procuro sempre dominar minhas deficiências, sendo a preguiça a maior delas. Poderia estar perfeitamente preguiçosa, mas não estou.
Outra ressalva, em minha alma, é que ela é triste. Só que não posso estar triste, pois devo, à minha obra, maior discernimento e, às minhas filhas, a força para criá-las fortes. Então também corro porque o contrário disso seria chorar, reclamar sem nada fazer e fumar mil cigarros. Dizem que quem tem a lua em Peixes, no zodíaco, como eu, tem tendência aos vícios. Corro, portanto, dessa queda para a autodestruição, pois não existe melhor química contra depressão do que a endorfina.
Correr, assim, é meu remédio. A minha meditação. Correndo sozinha, estou em minha melhor companhia. Faz mais de dez anos que sigo fiel a essa saudável rotina. Já adquiri até uma sesamoidite crônica, mas tenho um bom médico de pés, e palmilhas especiais.
Dizem, os invejosos, que correr envelhece. Bom, o tempo envelhece. E eu prefiro enfrentá-lo na minha melhor forma. Nunca tendo sido gostosa, correndo, jamais ficarei caída.
Há os que garantem que correr é um modismo urbano. Não sinto dessa maneira, ou jamais teria me tornado adepta. Sou avessa a coisas "in". E, como também não sou dada a coletividades, sequer costumo correr em grupo. Mesmo nas corridas dos circuitos, das quais eventualmente participo, quando não estou sozinha, estou com um amigo silencioso.
Corro, acima de tudo, porque gosto. Às vezes, chego quase a chorar, tamanha a emoção. A sensação é de que estou deixando o que fui - meu passado é um resíduo que defendo, mas não carrego - para trás; e meu corpo agradece, renovado. Todos os músculos bem preparados para minha defesa, ou daqueles que de mim precisarem.
Sim, corro porque posso. Agradeço aos bons joelhos que possuo, que me sustentam sem reclamar. Claro, tenho métodos, tenho cuidados, tenho as minhas trilhas prediletas. Dou o melhor de mim nesse projeto, pois dependo dele para viver. Porque corro, não fumo mais. Porque corro, alimento-me melhor. Porque corro, não perco as sextas na biritagem - adoro correr aos sábados.
Concluindo, corro para não preencher perfis óbvios. Pois correr, no meu caso, é praticamente uma contradição. Porém insisto nisso, encarando como uma manifestação política, talvez mais significativa que votar. Corro, por causa disso, com toda a elegância e humildade. Aprendendo a cuidar bem desse corpo que Deus habita.
Por fim, eu corro porque acho bonito gente correndo, e quero que as minhas filhas vejam que todos somos capazes de mudar. E porque não suporto fazer regimes - é isso: corro porque adoro comer pizza à noite."
quinta-feira, 16 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Os pais envelhecem
Talvez a mais rica, forte e profunda experiência da caminhada humana seja a de ter um filho.
Plena de emoções, por vezes angustiante, ser pai ou mãe é provar os limites que constituem o sal e o mel do ato de amar alguém.
Quando nascem, os filhos comovem por sua fragilidade, seus imensos olhos, sua inocência e graça. Basta vê-los para que o coração se alargue em riso e cor. Um sorriso é capaz de abrir as portas de um paraíso. Eles chegam à nossa vida com promessas de amor incondicional. Dependem de nosso amor, dos cuidados que temos. E retribuem com gestos que enternecem.
Mas os anos passam e os filhos crescem. Escolhem seus próprios caminhos, parceiros e profissões. Trilham novos rumos, afastam-se da matriz. O tempo se encarrega da formação de novas famílias. Os netos nascem. Envelhecemos. E então algo começa a mudar.
Os filhos já não têm pelos pais aquela atitude de antes. Parece que agora só os ouvem para fazer críticas, reclamar, apontar falhas. Já não brilha mais nos olhos deles aquela admiração da infância e isso é uma dor imensa para os pais.
Por mais que disfarcem, todo pai e mãe percebe as mínimas faíscas no olho de um filho.
É quando pais, idosos, dizem para si mesmos: Que fiz eu? Por que o encanto acabou? Por que meu filho já não me tem como seu herói particular?
Apenas passaram-se alguns anos e parece que foram esquecidos os cuidados e a sabedoria que antes era referência para tudo na vida.
Aos poucos, a atitude dos filhos se torna cada vez mas impertinente. Praticamente não ouvem mais os conselhos. A cada dia demonstram mais impaciência. Acham que os pais têm opiniões superadas, antigas.
Pior é quando implicam com as manias, os hábitos antigos, as velhas músicas. E tentam fazer os velhos pais se adaptarem aos novos tempos, aos novos costumes.
Quanto mais envelhecem os pais, mais os filhos assumem o controle. Quando eles estão bem idosos, já não decidem o que querem fazer ou o que desejam comer e beber. Raramente são ouvidos quando tentam fazer algo diferente.
Passeios, comida, roupas, médicos – tudo passa a ser decidido pelos filhos.
E, no entanto, os pais estão apenas idosos. Mas continuam em plena posse da mente. Por que então desrespeitá-los?
Por que tratá-los como se fossem inúteis ou crianças sem discernimento?
Sim, é o que a maioria dos filhos faz. Dá ordens aos pais, trata-os como se não tivessem opinião ou capacidade de decisão.
E, no entanto, no fundo daqueles olhos cercados de rugas, há tanto amor. Naquelas mãos trêmulas, há sempre um gesto que abençoa, acaricia.
* * *
A cada dia que nasce, lembre-se, está mais perto o dia da separação. Um dia, o velho pai já não estará aqui.
O cheiro familiar da mãe estará ausente. As roupas favoritas para sempre dobradas sobre a cama, os chinelos em um canto qualquer da casa.
Então, valorize o tempo de agora com os pais idosos. Paciência com eles quando se recusam a tomar os remédios, quando falam interminavelmente sobre doenças, quando se queixam de tudo.
Abrace-os apenas, enxugue as lágrimas deles, ouça as histórias (mesmo que sejam repetidas)e dê-lhes atenção, afeto...
Acredite: dentro daquele velho coração brotarão todas as flores da esperança e da alegria.
(Autor desconhecido)
Plena de emoções, por vezes angustiante, ser pai ou mãe é provar os limites que constituem o sal e o mel do ato de amar alguém.
Quando nascem, os filhos comovem por sua fragilidade, seus imensos olhos, sua inocência e graça. Basta vê-los para que o coração se alargue em riso e cor. Um sorriso é capaz de abrir as portas de um paraíso. Eles chegam à nossa vida com promessas de amor incondicional. Dependem de nosso amor, dos cuidados que temos. E retribuem com gestos que enternecem.
Mas os anos passam e os filhos crescem. Escolhem seus próprios caminhos, parceiros e profissões. Trilham novos rumos, afastam-se da matriz. O tempo se encarrega da formação de novas famílias. Os netos nascem. Envelhecemos. E então algo começa a mudar.
Os filhos já não têm pelos pais aquela atitude de antes. Parece que agora só os ouvem para fazer críticas, reclamar, apontar falhas. Já não brilha mais nos olhos deles aquela admiração da infância e isso é uma dor imensa para os pais.
Por mais que disfarcem, todo pai e mãe percebe as mínimas faíscas no olho de um filho.
É quando pais, idosos, dizem para si mesmos: Que fiz eu? Por que o encanto acabou? Por que meu filho já não me tem como seu herói particular?
Apenas passaram-se alguns anos e parece que foram esquecidos os cuidados e a sabedoria que antes era referência para tudo na vida.
Aos poucos, a atitude dos filhos se torna cada vez mas impertinente. Praticamente não ouvem mais os conselhos. A cada dia demonstram mais impaciência. Acham que os pais têm opiniões superadas, antigas.
Pior é quando implicam com as manias, os hábitos antigos, as velhas músicas. E tentam fazer os velhos pais se adaptarem aos novos tempos, aos novos costumes.
Quanto mais envelhecem os pais, mais os filhos assumem o controle. Quando eles estão bem idosos, já não decidem o que querem fazer ou o que desejam comer e beber. Raramente são ouvidos quando tentam fazer algo diferente.
Passeios, comida, roupas, médicos – tudo passa a ser decidido pelos filhos.
E, no entanto, os pais estão apenas idosos. Mas continuam em plena posse da mente. Por que então desrespeitá-los?
Por que tratá-los como se fossem inúteis ou crianças sem discernimento?
Sim, é o que a maioria dos filhos faz. Dá ordens aos pais, trata-os como se não tivessem opinião ou capacidade de decisão.
E, no entanto, no fundo daqueles olhos cercados de rugas, há tanto amor. Naquelas mãos trêmulas, há sempre um gesto que abençoa, acaricia.
* * *
A cada dia que nasce, lembre-se, está mais perto o dia da separação. Um dia, o velho pai já não estará aqui.
O cheiro familiar da mãe estará ausente. As roupas favoritas para sempre dobradas sobre a cama, os chinelos em um canto qualquer da casa.
Então, valorize o tempo de agora com os pais idosos. Paciência com eles quando se recusam a tomar os remédios, quando falam interminavelmente sobre doenças, quando se queixam de tudo.
Abrace-os apenas, enxugue as lágrimas deles, ouça as histórias (mesmo que sejam repetidas)e dê-lhes atenção, afeto...
Acredite: dentro daquele velho coração brotarão todas as flores da esperança e da alegria.
(Autor desconhecido)
sábado, 11 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
ESTRADA REAL 2006
ESTRADA REAL 2006
Então chega um momento em que você se acha invencível.
Os caminhos vão se multiplicando. Todo ano um caminho novo é trilhado! Muita poeira, muitas bolhas nos pés, muitas cervejas bebidas à beira da estrada.
Já adquiriu tanta experiência na estrada que subestima todos os caminhos como se fossem apenas mais uma caminhada até a padaria.
Então a Estrada Real entrou em nossa vida.
Ora, seriam apenas mais 400 e poucos quilômetros entre Diamantina e Ouro Preto a mais na nossa lista. Nem sequer seria necessário compra uma bota nova para a empreitada, ainda que a minha, com 5 anos de uso já estivesse rota.
Partimos para Diamantina numa viagem complicada que envolveu avião e ônibus e uma logística apertada de horários. Ainda bem que foi antes da crise aérea que assolou o país logo em seguida.
Chegar de madrugada em uma cidade, debaixo de um aguaceiro, sem ter ninguém esperando, ou sequer uma reserva em algum hotel é uma sensação que todos deveriam ter alguma vez na vida. Você desce do ônibus e fica olhando em volta sem saber exatamente o que fazer.
A sensação é de liberdade, eu diria. Não há preocupação com o seu carro estacionado na rua, ou com aquele relatório que você terá que apresentar no trabalho. Estas coisas mundanas que ocupam a maior parte do nosso tempo.
Por sorte um hotel simples em frente à rodoviária salvou nossos corpos cansados de uma noite deitado num banco. Aliás, toda rodoviária tem um hotel na frente, o que diminui um pouco a sensação de abandono no começo da caminhada.
Diamantina é uma cidade que merece ser visitada, embora nossa meta fosse trilhar a Estrada Real. Assim, ficamos um dia inteiro por lá antes de iniciar a empreitada.
Nossa sorte foi que chegamos na cidade numa sexta feira e pudemos desfrutar no sábado de tudo o que a cidade tinha a oferecer em termos de diversão. Serenatas, vesperatas (seja lá qual for o nome que eles dão ao evento), torresminho com mandioca na praça central, regada a cerveja gelada e a uma autentica, e deliciosa, cachaça mineira.
Até agora só alegria. Um começo fantástico!
Mas a caminhada se revelaria um autêntico desafio à nossa força de vontade. A Estrada Real deve ter sido planejada para motoqueiros e jipeiros, já que as distâncias são aproximadas. Algo assim como marcar a distância entre as duas cidades sem levar em conta o espaço existente entre o hotel ou pousada e o limite do município.
Então, teve dias em que nossa planilha de distância marcava 22 Km, mas, não chegávamos ao destino nunca, chegando a percorrer 6, 7 Km a mais do que o planejado. Isto deixa a gente bem “pra baixo”, pra dizer o mínimo.
Some-se a isto a completa, ou quase completa, inexistência de infra-estrutura para pedestres entre as cidades. Nenhum bar, poucas casas (e todas vazias).
Para contribuir ainda mais com o desastre, choveu quase todo o dia, o dia inteiro, fazendo com que sequer tivéssemos um local para sentar e descansar em que não tivesse lama.
A bota, já desgastada, não agüentou muito tempo a empreitada. Perdeu a sola no terceiro dia. Mas já antes de estourar de vez, foi suficiente para estourar os pés, já que a gente acaba pisando tudo torto pra tentar evitar o inevitável.
E para achar uma bota decente pra comprar nas cidades pequenas onde passamos? Pior é que achei uma bem honesta, só que amaciar uma bota de caminhada na caminhada é de lascar.
A coisa começa a sair do campo da diversão para entrar no campo do sofrimento.
Então a gente começa a ficar mais condescendente e acaba abrindo alguns precedentes inimagináveis dias antes. Um onibuzinho aqui, um taxizinho ali. E onde passa um boi, passa uma boiada.
O golpe de misericórdia aconteceu em Morro do Pilar. Depois de um dia inteiro andando debaixo de chuva, com lama até o pescoço, chegamos nesta cidade. Uma pousada muito feia, suja, com atendentes desinteressados. Dos carrapatos melhor não falar.
Resumindo a história, às Favas com a Estrada Real. Pela manhã, ainda debaixo de uma chuva gigante, descobrimos que tinha um ônibus que saia para Belo Horizonte em 1 hora. Depois de uma reunião em que todos queriam apanhar o ônibus, mas ninguém queria ser o responsável por jogar a toalha, decidimos pelo ônibus.
A partir de então a coisa virou turismo. Carro alugado em BH e viagem a Ouro Preto como turistas convencionais.
Sem preconceitos, a coisa foi muito divertida e gostaria de repetir a dose um dia desses.
Então chega um momento em que você se acha invencível.
Os caminhos vão se multiplicando. Todo ano um caminho novo é trilhado! Muita poeira, muitas bolhas nos pés, muitas cervejas bebidas à beira da estrada.
Já adquiriu tanta experiência na estrada que subestima todos os caminhos como se fossem apenas mais uma caminhada até a padaria.
Então a Estrada Real entrou em nossa vida.
Ora, seriam apenas mais 400 e poucos quilômetros entre Diamantina e Ouro Preto a mais na nossa lista. Nem sequer seria necessário compra uma bota nova para a empreitada, ainda que a minha, com 5 anos de uso já estivesse rota.
Partimos para Diamantina numa viagem complicada que envolveu avião e ônibus e uma logística apertada de horários. Ainda bem que foi antes da crise aérea que assolou o país logo em seguida.
Chegar de madrugada em uma cidade, debaixo de um aguaceiro, sem ter ninguém esperando, ou sequer uma reserva em algum hotel é uma sensação que todos deveriam ter alguma vez na vida. Você desce do ônibus e fica olhando em volta sem saber exatamente o que fazer.
A sensação é de liberdade, eu diria. Não há preocupação com o seu carro estacionado na rua, ou com aquele relatório que você terá que apresentar no trabalho. Estas coisas mundanas que ocupam a maior parte do nosso tempo.
Por sorte um hotel simples em frente à rodoviária salvou nossos corpos cansados de uma noite deitado num banco. Aliás, toda rodoviária tem um hotel na frente, o que diminui um pouco a sensação de abandono no começo da caminhada.
Diamantina é uma cidade que merece ser visitada, embora nossa meta fosse trilhar a Estrada Real. Assim, ficamos um dia inteiro por lá antes de iniciar a empreitada.
Nossa sorte foi que chegamos na cidade numa sexta feira e pudemos desfrutar no sábado de tudo o que a cidade tinha a oferecer em termos de diversão. Serenatas, vesperatas (seja lá qual for o nome que eles dão ao evento), torresminho com mandioca na praça central, regada a cerveja gelada e a uma autentica, e deliciosa, cachaça mineira.
Até agora só alegria. Um começo fantástico!
Mas a caminhada se revelaria um autêntico desafio à nossa força de vontade. A Estrada Real deve ter sido planejada para motoqueiros e jipeiros, já que as distâncias são aproximadas. Algo assim como marcar a distância entre as duas cidades sem levar em conta o espaço existente entre o hotel ou pousada e o limite do município.
Então, teve dias em que nossa planilha de distância marcava 22 Km, mas, não chegávamos ao destino nunca, chegando a percorrer 6, 7 Km a mais do que o planejado. Isto deixa a gente bem “pra baixo”, pra dizer o mínimo.
Some-se a isto a completa, ou quase completa, inexistência de infra-estrutura para pedestres entre as cidades. Nenhum bar, poucas casas (e todas vazias).
Para contribuir ainda mais com o desastre, choveu quase todo o dia, o dia inteiro, fazendo com que sequer tivéssemos um local para sentar e descansar em que não tivesse lama.
A bota, já desgastada, não agüentou muito tempo a empreitada. Perdeu a sola no terceiro dia. Mas já antes de estourar de vez, foi suficiente para estourar os pés, já que a gente acaba pisando tudo torto pra tentar evitar o inevitável.
E para achar uma bota decente pra comprar nas cidades pequenas onde passamos? Pior é que achei uma bem honesta, só que amaciar uma bota de caminhada na caminhada é de lascar.
A coisa começa a sair do campo da diversão para entrar no campo do sofrimento.
Então a gente começa a ficar mais condescendente e acaba abrindo alguns precedentes inimagináveis dias antes. Um onibuzinho aqui, um taxizinho ali. E onde passa um boi, passa uma boiada.
O golpe de misericórdia aconteceu em Morro do Pilar. Depois de um dia inteiro andando debaixo de chuva, com lama até o pescoço, chegamos nesta cidade. Uma pousada muito feia, suja, com atendentes desinteressados. Dos carrapatos melhor não falar.
Resumindo a história, às Favas com a Estrada Real. Pela manhã, ainda debaixo de uma chuva gigante, descobrimos que tinha um ônibus que saia para Belo Horizonte em 1 hora. Depois de uma reunião em que todos queriam apanhar o ônibus, mas ninguém queria ser o responsável por jogar a toalha, decidimos pelo ônibus.
A partir de então a coisa virou turismo. Carro alugado em BH e viagem a Ouro Preto como turistas convencionais.
Sem preconceitos, a coisa foi muito divertida e gostaria de repetir a dose um dia desses.
Jacob Boehme
VIDA SUPERSENSORIAL.
TEU PRÓPRIO OUVIR, DESEJAR E VER, TE IMPEDEM DE VER E OUVIR A DEUS.
PELO EXERCÍCIO DA TUA PRÓPRIA VONTADE, SEPARAS A TI MESMO DA VONTADE DE DEUS E, PELO EXERCÍCIO DE TUA PRÓPRIA VISÃO, VÊS SOMENTE SEGUNDO TEUS PRÓPRIOS DESEJOS, ENQUANTO TEU DESEJAR OBSTRUI TEU SENTIDO DE AUDIçÃO, FECHADO TEUS OUVIDOS COM AQUILO QUE PERTENCE A COISAS TERRESTRES OU MATERIAIS.
ISTO TE OBSCURECE E NÃO CONSEGUES VER AQUILO QUE TRANSCENDE TUA PRÓPRIA NATUREZA HUMANA E É SUPERSENSORIAL.
MAS, SE FICARES QUIETO, E DESISTIRES DE PENSAR E SENTIR COM TUA PRÓPRIA INDIVIDUALIDADE, ENTÃO A ETERNA AUDIçÃO, A ETERNA VISÃO E A ETERNA FALA A TI SERÃO REVELADAS, E DEUS VERÁ E OUVIRÁ E PERCEBERÁ ATRAVÉS DE TI.
JACOB BOEHME.
TEU PRÓPRIO OUVIR, DESEJAR E VER, TE IMPEDEM DE VER E OUVIR A DEUS.
PELO EXERCÍCIO DA TUA PRÓPRIA VONTADE, SEPARAS A TI MESMO DA VONTADE DE DEUS E, PELO EXERCÍCIO DE TUA PRÓPRIA VISÃO, VÊS SOMENTE SEGUNDO TEUS PRÓPRIOS DESEJOS, ENQUANTO TEU DESEJAR OBSTRUI TEU SENTIDO DE AUDIçÃO, FECHADO TEUS OUVIDOS COM AQUILO QUE PERTENCE A COISAS TERRESTRES OU MATERIAIS.
ISTO TE OBSCURECE E NÃO CONSEGUES VER AQUILO QUE TRANSCENDE TUA PRÓPRIA NATUREZA HUMANA E É SUPERSENSORIAL.
MAS, SE FICARES QUIETO, E DESISTIRES DE PENSAR E SENTIR COM TUA PRÓPRIA INDIVIDUALIDADE, ENTÃO A ETERNA AUDIçÃO, A ETERNA VISÃO E A ETERNA FALA A TI SERÃO REVELADAS, E DEUS VERÁ E OUVIRÁ E PERCEBERÁ ATRAVÉS DE TI.
JACOB BOEHME.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Pico Paraná 2006
Saibam quantos desta lerem, que aos 22 dias do mês de julho de 2006, partiram rumo ao Pico Paraná 8 intrépidos aventureiros.
A aproximação à base da montanha ocorreu sem maiores incidentes exceto pela marcação, nos instrumentos de navegação da viatura de transporte de troupe, de uma temperatura de apenas 2,5° Celsius (congelante).
Após estacionarmos nas aconchegantes dependências da fazenda Bruno, iniciamos a subida levantando poeira na estreita trilha e fazendo uma ventania capaz de balouçar a copa das mais altas árvores, deixando os tucanos do local de bico caído.
Seguimos em ritmo alucinante até a encosta do Caratuva, disputando com unhas e dentes a posição de líder da expedição.
Com algumas poucas paradas para apreciar a natureza luxuriante do local (não que estivéssemos cansados), decidimos mandar um batedor à frente para reservar lugar nos melhores points do campo 2, onde pretendíamos passar a noite. Cautela necessária porque o local mais parecia o balneário de Ipanema em pleno carnaval, de tanta gente que tinha por lá.
Pouco antes do Campo 1 abastecemos nossos cantis numa fonte de água alcalino terrosa (mais terrosa que alcalina) o que nos faria lembrar amargamente deste momento ao longo de todo o dia seguinte.
Descemos a encosta do Caratuva com muita facilidade, graças ao nosso excelente preparo físico, tendo deixado para trás, inclusive, um grupo da terceira idade do Asilo São Vicente.
Tudo correu muito bem até a chegada das escadinhas de ataque na base do campo 2. Ali, tivemos que fazer a ancoragem de um de nossos destemidos colegas, com pânico de altura, já que seria pior carregá-lo no colo, caso desmaiasse em virtude das vertiginosas altitudes a que seríamos expostos.
Não teria sido nenhum problema se a certa altura, ao rebocarmos sua mochila com a corda, não tivesse arrebentado a alça da mesma fazendo com que despencasse morro abaixo com ensurdecedor estardalhaço. A mochila foi prontamente salva por um corajoso colega que, com risco da própria vida, botou a canela no caminho da mochila desgovernada.
Após o primeiro lance de escadinhas fomos ultrapassados por um casal de alpinistas. A visão da subida deste casal, mais especificamente da garota, singelamente chamada Juju, provocou uma reação inusitada no nosso colega com medo de altura, que o fez galgar os degraus finais sem sequer se preocupar com a corda de ancoragem, deixando marcas de suas unhas no artefato mineral que nos sustentava naquele momento, bufando e babando feito um pitbull.
Em seguida, chegamos em segurança no campo 2, onde éramos aguardados pelo nosso eficiente batedor, com as barracas já praticamente armadas, e o café borbulhando no bule. Bem, menos um pouco. Na verdade ele estava deitado numa sombra fumando um cigarro.
Notável neste momento somente o fato de que acamparam ao nosso lado um grupo de “táligados”. Para quem não conhece tal animal, basta dizer que assemelham-se imensamente com galinhas da angola, só que em vez de ficarem repetindo à exaustão “to fraco”, eles repetem “tá ligado?”.
Durante nosso aprazível relaxamento (à base de cachimbadas, narguilezadas, whisky, conhaque, ais e uis) pudemos planejar como seria o ataque ao cume na manhã seguinte.
Nos divertimos muito durante a madrugada ouvindo os inúmeros tons de ronco provenientes de todas as barracas, indistintamente. Nosso batedor conseguiu a proeza de roncar acordado. Coisa de profissional! Também ouvimos muitos “táligados” chorando a perda das barracas em virtude da alucinante brisa fresca que soprava no local.
A temperatura no local estava muito agradável. Uma média de 20° Celsius (40º de dia, 0º à noite).
A alvorada deu-se às 5:00 da manhã, depois de uma confortável noite de sono relaxante e recuperador. Após um lauto café da manhã partimos para o ataque final ao cume, de 1962 metros. Afinal, só cume interessa!
Nesta etapa, amarelaram alguns membros de nossa equipe com as desculpas mais esfarrapadas possíveis, que iam desde cuidar do acampamento até dores nas costas.
A subida foi muito tranquila, marcada apenas pela perda de vários bonés em virtude do alucinante vento que soprava no local.
O cume estava muito lindo, como todo cume!
A volta ocorreu sem maiores incidentes, exceto pelos resultados da utilização de água alcalino terrosa na véspera. Diversos aventureiros foram obrigados a libertar seus amigos mais íntimos nas cercanias de nosso acampamento. Felizmente deixamos o local logo em seguida.
Depois, já na trilha, um de nossos alpinistas, deixou sua marca na Serra da Ibitipoca. Adiantou-se um pouco do restante do grupo e momentos após, só ouvimos o tremor na terra provocado pela liberação do material. O odor nos acompanhou por horas durante a trilha (e até agora está difícil de esquecer).
Seguiram-se vários episódios de visita aos prazeres do banheiro ao ar livre, Alguns com tal urgência que mal deu para afastar-se da trilha, de modo que alguns acabaram sendo flagrados por outros campistas, literalmente com as calças na mão. Muito depois, ainda ouvíamos o relato dos grupos comentando que tinham visto um animal pequeno, com cerca de 1 metro de altura, com a cara rachada e muito branca e que parecia estar fumando um charuto. Melhor deixá-los na inocência! A esta altura, vários colegas já estavam usando lenços umedecidos no lugar do papel.
Perto do fim de nossa aventura, Nosso magnífico e debilitado grupo já se queixava até de dor no cabelo. Mas tudo recompensado pela magnífica sensação de ter conseguido voltar para casa sem maiores danos.
- “Foi um tesão de fim de semana!!!”
Confira as fotos...
A aproximação à base da montanha ocorreu sem maiores incidentes exceto pela marcação, nos instrumentos de navegação da viatura de transporte de troupe, de uma temperatura de apenas 2,5° Celsius (congelante).
Após estacionarmos nas aconchegantes dependências da fazenda Bruno, iniciamos a subida levantando poeira na estreita trilha e fazendo uma ventania capaz de balouçar a copa das mais altas árvores, deixando os tucanos do local de bico caído.
Seguimos em ritmo alucinante até a encosta do Caratuva, disputando com unhas e dentes a posição de líder da expedição.
Com algumas poucas paradas para apreciar a natureza luxuriante do local (não que estivéssemos cansados), decidimos mandar um batedor à frente para reservar lugar nos melhores points do campo 2, onde pretendíamos passar a noite. Cautela necessária porque o local mais parecia o balneário de Ipanema em pleno carnaval, de tanta gente que tinha por lá.
Pouco antes do Campo 1 abastecemos nossos cantis numa fonte de água alcalino terrosa (mais terrosa que alcalina) o que nos faria lembrar amargamente deste momento ao longo de todo o dia seguinte.
Descemos a encosta do Caratuva com muita facilidade, graças ao nosso excelente preparo físico, tendo deixado para trás, inclusive, um grupo da terceira idade do Asilo São Vicente.
Tudo correu muito bem até a chegada das escadinhas de ataque na base do campo 2. Ali, tivemos que fazer a ancoragem de um de nossos destemidos colegas, com pânico de altura, já que seria pior carregá-lo no colo, caso desmaiasse em virtude das vertiginosas altitudes a que seríamos expostos.
Não teria sido nenhum problema se a certa altura, ao rebocarmos sua mochila com a corda, não tivesse arrebentado a alça da mesma fazendo com que despencasse morro abaixo com ensurdecedor estardalhaço. A mochila foi prontamente salva por um corajoso colega que, com risco da própria vida, botou a canela no caminho da mochila desgovernada.
Após o primeiro lance de escadinhas fomos ultrapassados por um casal de alpinistas. A visão da subida deste casal, mais especificamente da garota, singelamente chamada Juju, provocou uma reação inusitada no nosso colega com medo de altura, que o fez galgar os degraus finais sem sequer se preocupar com a corda de ancoragem, deixando marcas de suas unhas no artefato mineral que nos sustentava naquele momento, bufando e babando feito um pitbull.
Em seguida, chegamos em segurança no campo 2, onde éramos aguardados pelo nosso eficiente batedor, com as barracas já praticamente armadas, e o café borbulhando no bule. Bem, menos um pouco. Na verdade ele estava deitado numa sombra fumando um cigarro.
Notável neste momento somente o fato de que acamparam ao nosso lado um grupo de “táligados”. Para quem não conhece tal animal, basta dizer que assemelham-se imensamente com galinhas da angola, só que em vez de ficarem repetindo à exaustão “to fraco”, eles repetem “tá ligado?”.
Durante nosso aprazível relaxamento (à base de cachimbadas, narguilezadas, whisky, conhaque, ais e uis) pudemos planejar como seria o ataque ao cume na manhã seguinte.
Nos divertimos muito durante a madrugada ouvindo os inúmeros tons de ronco provenientes de todas as barracas, indistintamente. Nosso batedor conseguiu a proeza de roncar acordado. Coisa de profissional! Também ouvimos muitos “táligados” chorando a perda das barracas em virtude da alucinante brisa fresca que soprava no local.
A temperatura no local estava muito agradável. Uma média de 20° Celsius (40º de dia, 0º à noite).
A alvorada deu-se às 5:00 da manhã, depois de uma confortável noite de sono relaxante e recuperador. Após um lauto café da manhã partimos para o ataque final ao cume, de 1962 metros. Afinal, só cume interessa!
Nesta etapa, amarelaram alguns membros de nossa equipe com as desculpas mais esfarrapadas possíveis, que iam desde cuidar do acampamento até dores nas costas.
A subida foi muito tranquila, marcada apenas pela perda de vários bonés em virtude do alucinante vento que soprava no local.
O cume estava muito lindo, como todo cume!
A volta ocorreu sem maiores incidentes, exceto pelos resultados da utilização de água alcalino terrosa na véspera. Diversos aventureiros foram obrigados a libertar seus amigos mais íntimos nas cercanias de nosso acampamento. Felizmente deixamos o local logo em seguida.
Depois, já na trilha, um de nossos alpinistas, deixou sua marca na Serra da Ibitipoca. Adiantou-se um pouco do restante do grupo e momentos após, só ouvimos o tremor na terra provocado pela liberação do material. O odor nos acompanhou por horas durante a trilha (e até agora está difícil de esquecer).
Seguiram-se vários episódios de visita aos prazeres do banheiro ao ar livre, Alguns com tal urgência que mal deu para afastar-se da trilha, de modo que alguns acabaram sendo flagrados por outros campistas, literalmente com as calças na mão. Muito depois, ainda ouvíamos o relato dos grupos comentando que tinham visto um animal pequeno, com cerca de 1 metro de altura, com a cara rachada e muito branca e que parecia estar fumando um charuto. Melhor deixá-los na inocência! A esta altura, vários colegas já estavam usando lenços umedecidos no lugar do papel.
Perto do fim de nossa aventura, Nosso magnífico e debilitado grupo já se queixava até de dor no cabelo. Mas tudo recompensado pela magnífica sensação de ter conseguido voltar para casa sem maiores danos.
- “Foi um tesão de fim de semana!!!”
Confira as fotos...
Caminho da Fé - 2004
“E ofício perigoso, Frodo, sair de sua porta. Você se lança na estrada e, se não tiver cuidado com os pés, só Deus sabe onde eles poderão levá-lo.”
Tolkien – O Senhor dos Anéis.
Caminhar
A grande maioria das pessoas caminha da sua casa até o carro, do carro até o trabalho e depois vice-versa. Alguns poucos se aventuram a suar a camisa em caminhadas de final de semana que variam de 30 minutos até uma hora em parques planos, ouvindo sua música predileta num diskman.
Mas para algumas pessoas a palavra caminhar reveste-se de um sentido lúdico, quase sagrado. São os peregrinos, ou se preferir, trekkers.
Para estas pessoas as distâncias são um tanto diferentes. Sabe lá o que é caminhar todo um dia para chegar ao seu destino?
Além disto, as distâncias mudam completamente quando tudo que se tem são suas botas. 2 km passam a ser uma distância longa, 5 km, notáveis, 15, 20, colossais, 40, quase inconcebíveis. E, no entanto, todos os dias aparecem “malucos” que estão dispostos a arriscar os pés nestas aventuras.
A vida vai, ao longo dos dias de caminhada, revestindo-se de uma simplicidade estonteante. Você passa a ficar, enfim, dono de seu tempo. Acorda quando fica claro, dorme quanto fica escuro, come quando tem fome e descansa quando está cansado. Desnecessário dizer que qualquer cama é confortável.
Acaba por perder a pressa, já que o único compromisso que tem é com a própria caminhada. Acabam-se as obrigações, deveres e ambições profissionais. Tudo que resta é um tédio tranqüilo, alheio a qualquer stress.
O início você passa por alguns desconfortos causados pelas dores musculares, possíveis (e prováveis) bolhas e a sensação de que suas roupas vão ficando cada vez menos limpas, não importa quanto você as lave. Ao cabo de 3 ou 4 dias você já está se lixando para tudo isso e o que realmente importa é a quantidade de água que levará na próxima etapa, já que, cedo, chega-se à conclusão de que água pesa.
Uma verdade implacável é que você tem que carregar tudo o que possui. Sua noção de necessidade assume uma outra dimensão. Questões como “Será que é necessário levar aquela aspirina para o caso de ter uma dor de cabeça?” Acabam por incomodá-lo vez ou outra. No caminho, e porque não na vida, aquilo que você possui te faz sofrer.
No começo, carregar a mochila é como se você fosse ao parque com seu filho pequeno e ele teimosamente insistisse em ficar no seu colo. Durante alguns minutos é divertido tê-lo tão próximo, mas logo começa a ficar desconfortável, aparece uma pontada no pescoço, um aperto entre as omoplatas e a sensação vai se espalhando pelo corpo até que você sente a vontade de jogar seu filho no chão, apesar dos olhares de reprovação de sua mulher.
O Brasil é cheio de possibilidades de caminhadas deste tipo. Tem o Caminho do Sol, Caminho da Luz, Passos de Anchieta, Caminho das Missões, etc.
O primeiro caminho trilhado depois do Caminho de Santiago foi o Caminho da Fé. Um trecho de mais ou menos 420 Km que serpenteia os estados de São Paulo e Minas Gerais, ao longo da Serra da Mantiqueira.
Se os Km já assumem mega proporções quando se está a pé, se estivermos caminhando numa serra, então, a coisa fica muito pior.
A primeira, e mais dolorosa, constatação é que descer é pior. Apesar de suarmos muito e termos que parar constantemente nas subidas, é na descida que aparecem a maioria das bolhas, dores nos joelhos e tornozelos, além, é claro, de aumentarmos significativamente as chances de perdermos uma unha do pé.
E assim é o Caminho da Fé. Praticamente uma montanha para superar a cada dia. Uma longa subida na saída e uma descida abrupta na chegada. Como estamos a maior parte do trajeto em MG, é tudo “logo ali atrás daquele topzinho!”
Neste ponto faz-se necessário um pequeno à parte a uma das melhores coisas desta caminhada que é a acolhida do povo do interior. Você é recebido com o melhor que cada um tem a oferecer. Tudo com muita simplicidade. Some-se a isto a comida, as histórias, os sotaques e trejeitos e está garantida a diversão. A respeito dos botecos é melhor nem falar já que jamais bebi melhores cervejas do que nestes locais, seja qual for a marca!
Nesta caminhada, em particular, existe um forte apelo religioso, já que une a cidade de Tambaú, berço do milagreiro Pe Donizete (os mais velhos talvez lembrem dele) e Aparecida do Norte, berço da padroeira do Brasil.
Ao longo de todo o trajeto as pessoas vão desejando, sinceramente, sucesso em sua jornada. Alguns pedem orações à Santa quando chegar ao destino. Confesso que não sou uma pessoa extremamente religiosa ou devota de qualquer santo em particular, mas é difícil não se deixar tocar pela religiosidade do local e das pessoas.
Difícil, também, depois de percorrer cerca de 420 Km não se emocionar ao entrar na Basílica de N. Sra Aparecida e, ao ver as pessoas que lá estão, descobrir que há muito mais a agradecer do que a pedir. Neste momento, o melhor a fazer e relaxar e deixar as lágrimas rolarem.
Tolkien – O Senhor dos Anéis.
Caminhar
A grande maioria das pessoas caminha da sua casa até o carro, do carro até o trabalho e depois vice-versa. Alguns poucos se aventuram a suar a camisa em caminhadas de final de semana que variam de 30 minutos até uma hora em parques planos, ouvindo sua música predileta num diskman.
Mas para algumas pessoas a palavra caminhar reveste-se de um sentido lúdico, quase sagrado. São os peregrinos, ou se preferir, trekkers.
Para estas pessoas as distâncias são um tanto diferentes. Sabe lá o que é caminhar todo um dia para chegar ao seu destino?
Além disto, as distâncias mudam completamente quando tudo que se tem são suas botas. 2 km passam a ser uma distância longa, 5 km, notáveis, 15, 20, colossais, 40, quase inconcebíveis. E, no entanto, todos os dias aparecem “malucos” que estão dispostos a arriscar os pés nestas aventuras.
A vida vai, ao longo dos dias de caminhada, revestindo-se de uma simplicidade estonteante. Você passa a ficar, enfim, dono de seu tempo. Acorda quando fica claro, dorme quanto fica escuro, come quando tem fome e descansa quando está cansado. Desnecessário dizer que qualquer cama é confortável.
Acaba por perder a pressa, já que o único compromisso que tem é com a própria caminhada. Acabam-se as obrigações, deveres e ambições profissionais. Tudo que resta é um tédio tranqüilo, alheio a qualquer stress.
O início você passa por alguns desconfortos causados pelas dores musculares, possíveis (e prováveis) bolhas e a sensação de que suas roupas vão ficando cada vez menos limpas, não importa quanto você as lave. Ao cabo de 3 ou 4 dias você já está se lixando para tudo isso e o que realmente importa é a quantidade de água que levará na próxima etapa, já que, cedo, chega-se à conclusão de que água pesa.
Uma verdade implacável é que você tem que carregar tudo o que possui. Sua noção de necessidade assume uma outra dimensão. Questões como “Será que é necessário levar aquela aspirina para o caso de ter uma dor de cabeça?” Acabam por incomodá-lo vez ou outra. No caminho, e porque não na vida, aquilo que você possui te faz sofrer.
No começo, carregar a mochila é como se você fosse ao parque com seu filho pequeno e ele teimosamente insistisse em ficar no seu colo. Durante alguns minutos é divertido tê-lo tão próximo, mas logo começa a ficar desconfortável, aparece uma pontada no pescoço, um aperto entre as omoplatas e a sensação vai se espalhando pelo corpo até que você sente a vontade de jogar seu filho no chão, apesar dos olhares de reprovação de sua mulher.
O Brasil é cheio de possibilidades de caminhadas deste tipo. Tem o Caminho do Sol, Caminho da Luz, Passos de Anchieta, Caminho das Missões, etc.
O primeiro caminho trilhado depois do Caminho de Santiago foi o Caminho da Fé. Um trecho de mais ou menos 420 Km que serpenteia os estados de São Paulo e Minas Gerais, ao longo da Serra da Mantiqueira.
Se os Km já assumem mega proporções quando se está a pé, se estivermos caminhando numa serra, então, a coisa fica muito pior.
A primeira, e mais dolorosa, constatação é que descer é pior. Apesar de suarmos muito e termos que parar constantemente nas subidas, é na descida que aparecem a maioria das bolhas, dores nos joelhos e tornozelos, além, é claro, de aumentarmos significativamente as chances de perdermos uma unha do pé.
E assim é o Caminho da Fé. Praticamente uma montanha para superar a cada dia. Uma longa subida na saída e uma descida abrupta na chegada. Como estamos a maior parte do trajeto em MG, é tudo “logo ali atrás daquele topzinho!”
Neste ponto faz-se necessário um pequeno à parte a uma das melhores coisas desta caminhada que é a acolhida do povo do interior. Você é recebido com o melhor que cada um tem a oferecer. Tudo com muita simplicidade. Some-se a isto a comida, as histórias, os sotaques e trejeitos e está garantida a diversão. A respeito dos botecos é melhor nem falar já que jamais bebi melhores cervejas do que nestes locais, seja qual for a marca!
Nesta caminhada, em particular, existe um forte apelo religioso, já que une a cidade de Tambaú, berço do milagreiro Pe Donizete (os mais velhos talvez lembrem dele) e Aparecida do Norte, berço da padroeira do Brasil.
Ao longo de todo o trajeto as pessoas vão desejando, sinceramente, sucesso em sua jornada. Alguns pedem orações à Santa quando chegar ao destino. Confesso que não sou uma pessoa extremamente religiosa ou devota de qualquer santo em particular, mas é difícil não se deixar tocar pela religiosidade do local e das pessoas.
Difícil, também, depois de percorrer cerca de 420 Km não se emocionar ao entrar na Basílica de N. Sra Aparecida e, ao ver as pessoas que lá estão, descobrir que há muito mais a agradecer do que a pedir. Neste momento, o melhor a fazer e relaxar e deixar as lágrimas rolarem.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
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